Pura poesia
Isso é realmente muito poético, disse em voz alta quando olhou pra cima e contemplou a lua. Radiante, pensou, procurando palavras melhores e mais belas. Da janela de seu pequeno apartamento podia-se ver a rua deserta na madrugada. Os cortiços amontoados, os velhos prédios decadentes do centro da cidade. As velhas prostitutas prostradas, resignadas, na esquina.
Tudo muito poético. Principalmente seu lar miserável. Vazio como seu estômago. Sujo como suas roupas. Mas poético tanto quanto ele. No canto recôndito do quarto, apenas uma pequena escrivaninha disputa espaço com a cama de metal, retorcida, que geme de dor tanto quanto sua avó fazia quando... não, não havia mais espaço para velhas lembranças. Isso não era poético. A menos que fosse um Joyce moderno, coisa que, definitivamente, não era.
Preferia achar a si mesmo um Bukowski incompreendido. Sentava-se religiosamente em sua escrivaninha, devidamente embriagado, e espancava a velha Oliveti com ódio e vontade. Não gostava de computadores, nem se pudesse comprar um. Não eram poéticos. Fazia tudo como se devia fazer. Um dia, ah, um dia sim, todos aqueles editores que um dia receberam um de seus preciosos textos arrependeriam-se amargamente. Arrependeriam-se do dia que desprezaram aquele envelope pardo, sem saber que ali escondia-se um genuíno autor, um verdadeiro gênio da literatura mundial contemporânea.
Porém, não guardava rancor. Sabia o quão poético era ser um escritor maldito. Tinha certeza que o reconhecimento era inevitável, mais cedo ou mais tarde. Aqueles imbecis não entendiam nada. Mas ele sim. Próximo de completar 30 anos, fez o que o velho Buck havia feito. Pegou as parcas economias que ainda tinha e alugou aquele apartamento barato. Dali, só sairia como um escritor consagrado.
Não ligou quando os dias foram passando. Nem as semanas. Nem os meses. Recebeu ordem de despejo. Ficou doente e desnutrido. Isolara-se do mundo. Só havia ele ali, e sua Olivet, e a cerveja. Depois apenas o vinho barato e por fim a aguardente ordinária. Ah, que poético era tudo aquilo.
Da janela de seu apartamento, ficou parado, olhando a lua. Minutos mais tardes completaria mais uma década. Ainda jovem, pensou. Resolveu sair. Sentou-se na calçada, próximo às prostitutas e bebeu de uma vez um longo gole de cachaça, a única coisa que havia em sua casa. Desceu queimando a garganta e constipando o nariz, alojando-se soberana em seu estômago.
Só sentiu uma violenta contração no abdome e tombou de lado. O vômito encharcou seus cabelos.
Muito poético, pensou.
publicado por Diego Cruz
Comentários:
|
Apresentação
Pois então, depois de tantas e tantas voltas aqui estamos novamente. Não sei bem de onde surgiu a idéia desse blog. Talvez, pela própria necessidade de se escrever ou expressar. Acho que é isso que as pessoas procuram quando criam algo assim. Bem, já tive outro blog. Depois de um certo tempo o abandonei. Hoje, ele jaz coberto por mofo e poeira. Pra quem quiser conferir o Café com Jornal clique aqui. Enquanto durou, até que foi interessante. Cheguei a conhecer pessoas bacanas através dele (e não me venham dizer que "bacana" é brega). Vou deixá-lo lá pois é sempre bom reler coisas mais antigas. Perceber o que mudou e o que permanece.
Não que às vezes não seja assustador... mas deixemos esse assunto para outro momento.
Não sei se esse aqui vai durar muito. Sinceramente, pouco me importa. A idéia do Mais uma Mentira é ser, de certa forma, mais literário, uma simples experiência. Sem pretensões. Apenas simples, leve e descompromissado.
Como a vida deveria ser.
Sejam bem vindos!
PS.: Estou consideravelmente enferrujado no HTML (não que algum dia eu tenha entendido disso...). Tentarei melhorar o visual do blog com o tempo. As linhas, por exemplo, são muito longas, o que dificulta muito a leitura. Mas, enfim, resolveremos isso. Ou não.
publicado por Diego Cruz
Comentários:
|
Diálogo solo
_ E então?
_ E então o que?
_É tudo isso o você tem a me dizer? Depois de todos esses anos?
_Não tenho nada a te dizer. Não preciso te falar nada. Você que tire suas próprias conclusões. Você sempre fez isso, nunca precisei argumentar.
_Nunca precisou porque sempre foi um covarde. Nunca disse a verdade. Sempre tive que interpretar seus gestos, sua atitude.
_Pois então interprete isso. Pense o que quiser.
_Sim, é exatamente isso o que vou fazer. E você vai sofrer. Muito, bem mais do que eu.
_É, eu sei.
_E eu sei que você sabe.
_Você sempre soube de tudo. Até mesmo quando éramos jovens e tínhamos a vida pela frente.
_Sim. Desde o tempo em que costumávamos sonhar... Antes das contas, de todo o estresse e da opressão do cotidiano. Lembro-me de todos os planos feitos... Mal começamos a realizá-los.
_O futuro era um horizonte tão amplo e, ao mesmo tempo, parecia que podíamos tocá-lo com as pontas dos dedos.
_O que nos aconteceu? Por que mudamos tanto? Olho para trás e não mais me reconheço. Foi o mundo que nos deixou assim? O capitalismo bárbaro? A vida?
_Não sei, acho que simplesmente as pessoas mudam. Crescem. Transformam-se. Para o bem e para o mal.
(...)
_Está tentando mudar de assunto. Mais uma vez.
_Você que começou a divagar.
_Pois então.
_Pois então o que?
publicado por Diego Cruz
Comentários:
|